Desemprego em MT começou junto com pandemia e muitos estão sem expectativa; veja relatos

Opinião 01 de Maio de 2020 ás 10h 33min

O novo coronavírus chegou ao Brasil em fevereiro e em Mato Grosso no início de março. Bastou a primeira confirmação, em Cuiabá, que a vida de muitos trabalhadores tomou rumos inesperados. O home office, adotado principalmente nos órgãos públicos, refletiu diretamente na vida de outras pessoas, como as faxineiras e babás. O fechamento do comércio provocou uma onda gigantesca de demissão, principalmente nos shoppings que logo no início da pandemia já viram o movimento cair bruscamente. Então, mesmo antes de fecharem as portas, muitas lojas já haviam decidido por demissões. Sabe-se que há muitas pessoas sem renda neste momento, outras tentando se reinventar. Mas o fato é que não há levantamentos oficiais sobre a nova realidade no país, no estado e nem no município. Marcelo Augusto Souza Paiva, 33, é uma das pessoas demitidas logo no início da pandemia. Ele trabalhava há um ano e meio na filial de uma joalheria no shopping Goiabeiras. Junto com ele, foram mais dois vendedores, pois a empresa fechou as portas. Marcelo diz que já estava ocorrendo uma queda nas vendas e a empresa já tinha dado alguns sinais de que poderia haver enxugamento no quadro. Desta forma, não foram pegos tão de surpresa. Além disso, Marcelo relata que tem muitos amigos que moram fora do Brasil, inclusive em Nova York e na Espanha, epicentros da doença. Como sempre recebeu muitas informações dos amigos sobre a pandemia, diz que estava ficando preocupado em ir trabalhar. O pai do Marcelo faz parte do grupo de risco, pois tem mais de 60 anos, é diabético e hipertenso. Seu maior receio era ser a fonte de contágio do pai. E na casa de Marcelo não foi só ele a ficar sem emprego. O irmão foi demitido 15 dias depois. Por enquanto, Marcelo não faz planos de retornar ao mercado de trabalho, apesar de já ter recebido três propostas. Ele acredita que até junho estará empregado novamente. Como já tinha um tempo de empresa, pode sacar o FGTS, o que ajuda. “Mas não vou dizer que eu coloco a cabeça no travesseiro e durmo tranquilo. Não é isso”. Para ocupar o tempo, Marcelo tem feito cursos online por plataformas gratuitas e aproveitado também para ler. Ele estava cursando os 5º e 6º semestres de Secretariado Executivo no Instituto Federal de Mato Grosso (IFMT), onde as aulas foram suspensas no dia 11 de maio e não há nenhum tipo de atividade on line.

“Se fosse uma universidade particular já teria trancado. Prezo pelo alimento e saúde. É nisso que penso neste momento”. Queiroz França, 29, também trabalhava num shopping da Capital e perdeu o emprego no início da pandemia. Apesar de estar há pouco tempo trabalhando num quiosque de café no Três Américas, foi pega de surpresa. Gleicy conta que começou a trabalhar na empresa em novembro do ano passado, como freelancer. No dia 5 de fevereiro foi contratada, com carteira assinada. Mas daí veio a pandemia. No dia 20 de março foi mandada embora. Ela não tem emprego em vista e acredita que neste momento será muito difícil alguém contratar. Enquanto isso, Gleicy agradece o fato de ter ajuda da mãe e do marido e vai tentando economizar ao máximo o dinheiro do acerto. Para Gleicy, neste momento o pior tem sido a ansiedade, o medo. “Aumentou muito minha ansiedade, o nervosismo, a preocupação com o que vai acontecer a partir de agora. Eu não sei ficar parada”. Home office Outra categoria que tem sofrido muito durante esta pandemia são as faxineiras. Geralmente realizando diárias, sem carteira assinada, muitas se viram sem condições de pagar as contas. Leila Almeida, 52 anos, tinha quatro faxinas fixas por semana antes da pandemia, fora outras que sempre surgiam. Mas foi só surgir os primeiros casos, e as determinações de trabalho home office, que ela se viu em casa, sem nenhuma fonte de renda. A sorte, segundo Leila, é que ela não paga aluguel, pois mora com a mãe que é aposentada. O dinheiro é exclusivo para a alimentação e as contas, infelizmente, vão se acumulando. Duas pessoas para quem Leila trabalha já avisaram que no mês de maio ainda não vão precisar das faxinas. Desta forma, ela não tem nem mesmo expectativa de quando voltará a trabalhar. Além disso, tem lutado para receber o auxílio emergencial do governo federal, mas os problemas são muitos. Essa semana ela conseguiu o código e depois de esperar horas para usar um caixa eletrônico da Caixa Econômica Federal, foi informado erro. Ela terá que voltar para ser atendida por um funcionário. Reinventando Para a costureira Eutênia Ferreira Souza, 59, o jeito foi se ajustar ao momento. Desde os 13 anos com a mesma função, Eutênia é especialista em vestidos de noivas e festas. O Ateliê de Costura Pett Poa, no bairro Popular, sempre cheio de clientes escolhendo tecidos e modelos, virou apenas local para produção de máscaras e toucas. O último vestido de festa, ela entregou no dia 19 de março. Dois vestidos de noivas foram suspensos, porque os casamentos tiveram que ser cancelados, fora os inúmeros de madrinhas e festas de formaturas. Mas, desde o início da pandemia, ela estima que já fez mais de mil máscaras de pano e brinca que vai ter que acabar doando para algum hospital tamanha a produção. O kit montado com 12 máscaras custa R$ 100,00. A clientela continua praticamente a mesma. O ganho, Eutênia admite que caiu muito. “Não dá para pagar as contas, só para comer. Mas acredito que isso logo vai passar e vamos recomeçar”, diz esperançosa. Repórter MT

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