Discos para descobrir em casa – Amigos chegados, Jovelina Pérola Negra, 1990

31 de Julho de 2020 ás 13h 51min

 Descendente da nobre linhagem de partideiras fluminenses que traziam na voz a carga ancestral do samba, a cantora e compositora carioca Jovelina Pérola Negra é da família musical de Clementina de Jesus (1901 – 1987) e Dona Ivone Lara (1922 – 2018).

 

Como Clementina, Jovelina Farias Belfort (21 de julho de 1944 – 2 de novembro de 1998) trabalhou como empregada doméstica para se sustentar antes de conseguir viver do ofício de cantora.

                                                                        

Como Ivone Lara, Jovelina – partideira hábil na arte de improvisar versos com graça e rapidez – ganhou incentivo de Adelzon Alves para ingressar na carreira musical quando já contabilizava 40 anos.

 

Jovelina era atração frequente dos programas comandados nas madrugadas por esse radialista e produtor musical que notara a destreza da partideira nas rodas do pagode intitulado Terreirão da Tia Doca por ser armado no quintal da casa de Jilçária Cruz Costa (1932 – 2009), a sambista e pastora da Portela conhecida como Tia Doca.

 

Quarto álbum solo de Jovelina Pérola Negra, Amigos chegados foi lançado em 1990 pela RGE, gravadora que editou todos os discos dessa artista nascida no bairro carioca de Botafogo, mas criada em Miguel Couto, distrito do município de Belford Roxo na Baixada Fluminense (RJ), e depois residente no bairro da Pavuna.

 

Integrante da ala das baianas da escola de samba Império Serrano, Jovelina Pérola Negra sempre foi figura assídua e vivaz nas quadras das agremiações e nas rodas de pagode armadas nos subúrbios cariocas.

 

Para o público, no entanto, a cantora apareceu somente em 1985, como uma das intérpretes do disco coletivo Raça brasileira, pedra fundamental para a consolidação da nova geração do samba do Rio de Janeiro – samba então rotulado como pagode pela mídia.

 

Nesse pau-de-sebo (jargão fonográfico que designa discos com vários artistas iniciantes para testar a possibilidade de cada um escalar as paradas de sucesso), Jovelina cantou Pomba rolou (Carlinhos Caxambi e Adilson Gavião, 1985), dividiu com o também debutante Zeca Pagodinho a interpretação de Bagaço da laranja (1985) – partido alto composto por Zeca com Arlindo Cruz que se tornou um dos hits do disco – e deu voz à composição de lavra própria, Feirinha da Pavuna (1985), outro sucesso radiofônico do histórico LP.

 

O estouro do álbum Raça brasileira abriu caminho para que todos os integrantes do disco gravassem um álbum solo. O de Jovelina saiu em 1986 com o nome da cantora no título e com repertório que destacou o partido alto Menina você bebeu (Beto sem Braço, Arlindo Cruz e Acyr Marques, 1986).

 

O sucesso artístico e comercial do primeiro LP solo de Jovelina – com alardeadas 200 mil cópias vendidas – garantiu a continuidade da carreira fonográfica dessa artista de temperamento forte e voz áspera que, sem polimentos de estúdio, evocava uma rica ancestralidade afro-brasileira que fez de Jovelina uma sucessora natural de Clementina de Jesus.

 

Vieram, então, álbuns como Luz do repente (1987), Sorriso aberto (1988) – disco projetado pelo marcante samba-título do compositor Guaracy Sant'anna, o Guará – e Amigos chegados, disco gravado em 1989 e lançado em abril de 1990.

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