Por que o uso de antibióticos na agropecuária preocupa médicos e cientistas

Agronegócio 02 de Dezembro de 2019 ás 08h 23min

H√° quatro anos, em uma fazenda de cria√ß√£o intensiva em Xangai, na China, um exame feito em um porco prestes a ser abatido encontrou uma bact√©ria resistente ao antibi√≥tico colistina. O achado acendeu um alerta que ecoou pelo mundo ¬ó cada vez mais temeroso com a capacidade que micro-organismos t√™m demonstrado em driblar tratamentos √† base de antibi√≥ticos. A bact√©ria resistente encontrada no su√≠no, uma Escherichia coli, levou os cientistas da China a aprofundar os exames ¬ó agora, tamb√©m em frangos de fazendas de quatro prov√≠ncias chinesas, nas carnes cruas desses animais √† venda em mercados de Guangzhou, e em amostras de pessoas hospitalizadas com infec√ß√Ķes nas prov√≠ncias de Guangdong e Zhejiang. Eles encontraram uma ¬ďalta preval√™ncia¬Ē do Escherichia coli com o gene MCR-1, que d√° √†s bact√©rias uma alta resist√™ncia √† colistina e tem potencial de se alastrar para outras bact√©rias, como a Klebsiella pneumoniae e Pseudomonas aeruginosa. O MCR-1 foi encontrado em 166 de 804 animais analisados, e em 78 de 523 amostras de carne crua. J√° nos humanos, a incid√™ncia foi menor, mas se mostrou presente ¬ó em 16 amostras de 1.322 pacientes hospitalizados. ¬ďPor causa da propor√ß√£o relativamente baixa de amostras positivas coletadas em humanos na compara√ß√£o com animais, √© prov√°vel que a resist√™ncia √† colistina mediada pelo MCR-1 tenha se originado em animais e posteriormente se alastrado para os humanos¬Ē, explicou em 2015 Jianzhong Shen, da Universidade de Agricultura em Pequim, um dos autores do estudo, cujos resultados foram publicados no peri√≥dico The Lancet Infectious Diseases. Mas como esse material gen√©tico resistente pode ter passado dos animais para os humanos? O caminho de ¬ďtransmiss√£o¬Ē de microrganismos (bact√©rias, parasitas, fungos e etc) resistentes √© uma inc√≥gnita n√£o s√≥ para o caso dos porcos, frangos e pacientes na China, mas para o uso veterin√°rio e m√©dico de antibi√≥ticos como um todo. Pode ser que esses microrganismos ou resqu√≠cios de antibi√≥ticos (restos dos medicamentos que, em contato com os micr√≥bios, podem estimular sua resist√™ncia) possam estar se alastrando pelos alimentos, ou ainda atrav√©s do lixo hospitalar, len√ß√≥is fre√°ticos, rios e canais de esgoto ¬ó e a investiga√ß√£o para desvendar as rotas de bact√©rias tem motivado in√ļmeras pesquisas no Brasil e no mundo (veja detalhes sobre esses estudos abaixo). ¬ďAs bact√©rias n√£o t√™m fronteiras: a resist√™ncia pode passar de um lugar a outro sem passaporte e de v√°rias formas¬Ē, explica Fl√°via Rossi, doutora em patologia pela Faculdade de Medicina da Universidade de S√£o Paulo (USP) e integrante do Grupo Consultivo da OMS para a Vigil√Ęncia Integrada da Resist√™ncia Antimicrobiana (WHO-Agisar). ¬ďCom a globaliza√ß√£o, n√£o s√≥ o transporte de pessoas √© r√°pido, como os alimentos da China chegam ao Brasil e vice-versa. Essa cadeia mimetiza o que acontece com o clima: estamos todos interligados. Por isso, a Organiza√ß√£o Mundial da Sa√ļde (OMS) vem trabalhando com o enfoque de ¬ĎOne Health¬í (¬ĎSa√ļde √ļnica¬í em portugu√™s, a perspectiva de que a sa√ļde das pessoas, dos animais e o ambiente est√£o conectados).¬Ē Agora, a dimens√£o global do problema ganhou um mapeamento in√©dito juntando pesquisas j√° feitas medindo a presen√ßa de microrganismos resistentes em alimentos de origem animal em pa√≠ses de baixa e m√©dia renda ¬ó e o Brasil aparece no grupo de lugares com situa√ß√£o preocupante. N√£o quer dizer que o estudo considere o pa√≠s como um todo, mas pontos que j√° foram submetidos a pesquisas, como abatedouros de bois em cidades ga√ļchas ou em uma fazenda produtora de leite e queijo em Goi√°s. Sul brasileiro: foco de resist√™ncia microbiana China e √ćndia foram, segundo os autores do estudo, publicado na revista Science, ¬ďclaramente¬Ē os lugares em que os maiores n√≠veis de resist√™ncia foram encontrados. Mas o Sul do Brasil, leste da Turquia, os arredores da Cidade do M√©xico e Johanesburgo (√Āfrica do Sul), entre outros, se destacaram tamb√©m como hotspots, ou focos de resist√™ncia microbiana em animais destinados √† alimenta√ß√£o, principalmente bovinos, porcos e frangos (com n√≠veis elevados de P50, percentual acima de 50% de amostras de microrganismos resistentes a determinados antibi√≥ticos). As maiores resist√™ncias observadas foram relacionadas a alguns dos antibi√≥ticos mais usados na produ√ß√£o animal, como as tetraciclinas, sulfonamidas e penicilinas. Entre aqueles importantes para tratamento tamb√©m em humanos, destacaram-se a resist√™ncia √† ciprofloxacina e eritromicina. Os autores reuniram ainda dados que apontam para focos de resist√™ncia emergentes, ou seja, em que a resist√™ncia dos microrganismos a antibi√≥ticos est√° crescendo. A√≠, o Brasil tamb√©m aparece, tanto o Sul quanto o Centro-Oeste. Ap√≥s ler o estudo, a pesquisadora brasileira Silvana Lima Gorniak, professora titular da Faculdade de Medicina Veterin√°ria da USP, liga o destaque ao Sul justamente a uma maior cria√ß√£o de aves e su√≠nos na regi√£o, animais para os quais h√° maior uso de antimicrobianos com a finalidade de promover o crescimento (entenda os diferentes usos de antibi√≥ticos veterin√°rios e seus impactos abaixo). A situa√ß√£o da Am√©rica do Sul √© particularmente preocupante por causa da car√™ncia de dados, diz o estudo: ¬ďConsiderando que Uruguai, Paraguai, Argentina e Brasil s√£o exportadores de carne, √© preocupante que haja pouca vigil√Ęncia epidemiol√≥gica da resist√™ncia microbiana dispon√≠vel publicamente para esses pa√≠ses. Muitos pa√≠ses africanos de baixa renda t√™m mais pesquisas desse tipo do que os pa√≠ses de renda m√©dia na Am√©rica do Sul. Globalmente, o n√ļmero de pesquisas per capita n√£o se correlacionou com o PIB per capita, sugerindo que a capacidade de vigil√Ęncia n√£o √© impulsionada apenas por recursos financeiros.¬Ē Buscando ampliar, em partes, o acesso a esse tipo de informa√ß√£o, os autores do estudo lan√ßaram um banco de dados colaborativo para cadastro de pesquisas sobre o tema em todo o mundo, o ¬ďResistance Bank¬Ē. ¬ďO Brasil precisa urgentemente de dados de vigil√Ęncia dispon√≠veis publicamente sobre a resist√™ncia microbiana. √Č um grande exportador de carne, todos comemos frango brasileiro, seria bom saber o que h√° nele¬Ē, escreveu por e-mail √† BBC News Brasil Thomas Van Boeckel, um dos autores do estudo e pesquisador do Instituto Federal de Tecnologia de Zurique (ETH Zurich), na Su√≠√ßa. Em nota enviada √† BBC News Brasil, o Minist√©rio da Agricultura, Pecu√°ria e Abastecimento (Mapa) afirmou que, ¬ďem rela√ß√£o ao estudo da revista Science¬Ē, est√° ¬ďciente sobre a import√Ęncia da resist√™ncia aos antimicrobianos¬Ē. ¬ďTrata-se de um dos maiores desafios globais de sa√ļde p√ļblica e que deve ser abordado pelos pa√≠ses atendendo ao conceito de Sa√ļde √önica, exigindo a√ß√Ķes imediatas de todos os envolvidos¬Ē. A pasta garante que o pa√≠s est√° correndo atr√°s para ter um sistema de vigil√Ęncia, por meio do Plano de A√ß√£o Nacional de Preven√ß√£o e Controle da Resist√™ncia aos Antimicrobianos no √Ęmbito da Agropecu√°ria (PAN-BR AGRO), cujo prazo previsto para implementa√ß√£o vai de 2018 a 2022. Segundo fontes consultadas pela reportagem, o cronograma do plano tem sido cumprido. Um de seus pontos-chave, e j√° o colocado em pr√°tica, √© a realiza√ß√£o de testes oficiais de rotina para detec√ß√£o de micr√≥bios resistentes em animais e alimentos com essa origem. S√£o amostragens aleat√≥rias de ovos, leite, mel e de animais encaminhados para abate sob inspe√ß√£o federal, mas o que se busca s√£o resqu√≠cios de antibi√≥ticos, e n√£o microrganismos resistentes. Em 2018, o relat√≥rio apresentado pelo minist√©rio mostra que o percentual de amostras com resqu√≠cios de antibi√≥ticos em conformidade ficou na casa dos 99%. ¬ďPara ser seguro para consumo alimentar, a presen√ßa de determinadas bact√©rias tem que estar dentro de limites estabelecidos pelas ag√™ncias de sa√ļde de cada pa√≠s, o que j√° √© feito. Mas mais do que saber, por exemplo, a presen√ßa de Salmonella (g√™nero de bact√©rias) em galinhas ou porcos, √© poss√≠vel testar sistematicamente a suscetibilidade dela aos antibi√≥ticos ¬ó que √© realmente o que nos permite saber se as bact√©rias s√£o ou n√£o resistentes¬Ē, aponta Jo√£o Pedro do Couto Pires, tamb√©m coautor do estudo e pesquisador do ETH Zurich. Frangos com Salmonella resistente em Estados brasileiros Ainda que n√£o tenha hoje um levantamento sistematizado, o Brasil j√° teve experi√™ncias pontuais na medi√ß√£o da resist√™ncia microbiana em alimentos de origem animal. Uma an√°lise feita entre 2004 e 2006 pela Ag√™ncia Nacional de Vigil√Ęncia Sanit√°ria (Anvisa) em amostras de frangos congelados vendidos em 14 Estados brasileiros, detectou bact√©rias Salmonella e Enterococcus resistentes a v√°rios antimicrobianos. Das 250 cepas de Salmonella analisadas, por exemplo, 77% foram consideradas multirresistentes (resistentes a duas ou mais classes de antibi√≥ticos). O Minist√©rio da Agricultura, Pecu√°ria e Abastecimento destacou ainda que vem progressivamente proibindo medicamentos veterin√°rios usados com o objetivo principal de fazer os animais engordarem, os chamados melhoradores de desempenho. J√° foram proibidas subst√Ęncias do tipo como os anfenic√≥is, as tetraciclinas e as quinolonas. ¬ďNa cria√ß√£o animal, h√° basicamente tr√™s tipos de uso de antimicrobianos. O primeiro √© o terap√™utico, como ocorre com o ser humano. A segunda maneira √© a preventiva, como no desmame dos su√≠nos ¬ó esse animal provavelmente vai passar por estresse, vai ter uma imunossupress√£o (redu√ß√£o da atividade do sistema imunol√≥gico), e ela pode levar √† infec√ß√£o por v√°rias bact√©rias, ent√£o se faz preventivamente o tratamento¬Ē, explica Silvana Lima Gorniak, da USP. ¬ďA terceira maneira √© a mais pol√™mica, a mais discutida na ci√™ncia, que √© a administra√ß√£o (de antimicrobianos) como melhorador de desempenho. Nesse caso, o animal n√£o tem nenhuma doen√ßa, provavelmente n√£o vai ficar doente, e o antimicrobiano √© empregado com a finalidade de promover o crescimento. N√£o se sabe exatamente como, mas o animal de fato cresce.¬Ē A colistina, aquela a que bact√©rias em porcos na China mostraram resist√™ncia no estudo publicado no The Lancet Infectious Diseases em 2015, foi uma das subst√Ęncias proibidas para uso como melhorador de desempenho em ra√ß√Ķes no Brasil, em 2016. Seu uso para o tratamento de doen√ßas, como diarreias, continua, no entanto, permitido por aqui. Proibi√ß√Ķes foram impostas tamb√©m em outros pa√≠ses, como a pr√≥pria China, √ćndia e Argentina. Ao mesmo tempo, esta subst√Ęncia √© colocada pela OMS no grupo mais cr√≠tico entre os antibi√≥ticos que precisam urgentemente de substitutos ¬ó j√° que s√£o o √ļltimo recurso para o tratamento de algumas doen√ßas para as quais outros antibi√≥ticos n√£o funcionam mais, s√£o amplamente usados na medicina humana e j√° se mostraram altamente vulner√°veis √† resist√™ncia microbiana. Antimicrobianos passaram a ser mais significativamente usados na cria√ß√£o de animais para consumo nos anos 1950 em pa√≠ses de alta renda, algo que foi se estendendo para pa√≠ses de baixa e m√©dia renda ¬ó onde hoje, inclusive, proje√ß√Ķes mostram que o uso desses medicamentos aumentar√°, j√° que a produ√ß√£o e consumo de carne nesses pa√≠ses tem crescido. O elo entre precariedade e uso de antibi√≥ticos Thomas Van Boeckel destaca que, no mundo, o uso excessivo de antibi√≥ticos est√° associado √† cria√ß√£o intensiva de animais, a produ√ß√£o industrial, ¬ďmas n√£o em todos os pa√≠ses, algumas exce√ß√Ķes existem, como a Holanda e a Dinamarca¬Ē, aponta. Sandra Lopes, diretora da organiza√ß√£o Mercy for Animals no Brasil, v√™ o uso de antibi√≥ticos como uma das pr√°ticas degradantes impostas aos animais. ¬ďO uso de antibi√≥ticos for√ßa esses animais a seguirem produzindo em um sistema completamente cruel, onde os animais n√£o podem exercer nenhum de seus comportamentos naturais¬Ē, aponta a representante da ONG, dedicada ao bem estar de animais ditos de produ√ß√£o, aqueles destinados ao consumo aliment√≠cio. Como exemplos, ela menciona cria√ß√Ķes com confinamento intensivo em gaiolas. As galinhas poedeiras, confinadas em uma √°rea an√°loga ao que seria passar a vida inteira dividindo um elevador com outras 12 pessoas, segundo a ONG, n√£o t√™m espa√ßo para exercer comportamentos naturais como abrir as asas ou ciscar. Sem for√ßas nas pernas por n√£o moviment√°-las, essas galinhas podem sofrer fraturas com o peso do pr√≥prio corpo. Isso leva a um ciclo em que o uso de antibi√≥ticos se faz necess√°rio. H√° ainda a debicagem, quando os bicos dessas aves s√£o retirados para evitar, entre outros, o canibalismo ¬ó intensificado pelo estresse vivido pelos animais. √Č algo que leva tamb√©m ao corte dos rabos dos porcos, procedimentos esses que muitas vezes exigem tamb√©m o emprego de antibi√≥ticos. Lopes menciona ainda a falta de ventila√ß√£o, a lota√ß√£o de animais ou ainda o contato com excrementos como caracter√≠sticas da realidade da produ√ß√£o em escala que podem debilitar a sa√ļde dos animais. Por isso, a ONG defende, entre outras medidas, a melhor regulamenta√ß√£o de v√°rias etapas da cria√ß√£o de animais, a certifica√ß√£o de produtos gerados em pr√°ticas consideradas satisfat√≥rias (como existe no caso das galinhas poedeiras criadas fora de gaiolas) e, como recomenda√ß√£o aos clientes, a redu√ß√£o do consumo de produtos de origem animal. Silvana Lima Gorniak destaca que a liga√ß√£o entre precariedade na produ√ß√£o e uso excessivo de antibi√≥ticos fica mais evidente, uma vez mais, no caso dos melhoradores de desempenho. ¬ďAs condi√ß√Ķes sanit√°rias impactam diretamente no uso de antimicrobianos. Os melhoradores de desempenho t√™m um efeito muito ben√©fico naqueles lugares onde as condi√ß√Ķes sanit√°rias n√£o s√£o t√£o adequadas. Em locais com higiene adequada, √© claro que h√° benef√≠cios, mas ele √© dilu√≠do¬Ē, explica a pesquisadora. J√° os autores do artigo publicado na Science destacam que o cen√°rio de precariedade e consequente uso de antibi√≥ticos pode ser uma faca de dois gumes para os produtores: ¬ďUma consequ√™ncia fundamental desta tend√™ncia √© um esgotamento do portf√≥lio de tratamento para animais doentes. Essa perda tem consequ√™ncias econ√īmicas para os agricultores, porque os antimicrobianos acess√≠veis s√£o usados como tratamento de primeira linha, e isso pode eventualmente se refletir em alimentos com pre√ßos mais altos.¬Ē Entidade veterin√°ria pede maior controle de vendas de medicamentos no setor ¬ď√Č como para a gente, humanos: os antibi√≥ticos resolveram muitas quest√Ķes, mas se a gente abusa, vai chegar uma hora que eles n√£o ser√£o mais eficazes¬Ē, resume Fernando Zacchi, assessor t√©cnico da presid√™ncia do Conselho Federal de Medicina Veterin√°ria (CFMV). Zacchi diz que a entidade est√° empenhada em educar a categoria para um uso mais racional de antibi√≥ticos e tornar mais rigoroso o acesso a antimicrobianos veterin√°rios ¬ó hoje, ele explica ser necess√°ria a apresenta√ß√£o, mas n√£o reten√ß√£o, da receita. ¬ďA√≠ est√° uma fragilidade: estamos trabalhando com outros √≥rg√£os para a obrigatoriedade da reten√ß√£o e escritura√ß√£o¬Ē, aponta, lembrando que entra na quest√£o ainda o uso de antimicrobianos em animais dom√©sticos. Outro ponto √© o cumprimento da exig√™ncia de um respons√°vel t√©cnico nos pontos de venda destes medicamentos, algo que √© fiscalizado pelo pr√≥prio CFMV ¬ó a BBC News Brasil pediu dados sobre multas e autua√ß√Ķes relacionadas a essas regras, mas n√£o teve a solicita√ß√£o atendida. ¬ďEmbora o conselho e o Mapa entendam que deve haver um respons√°vel t√©cnico nesses estabelecimentos, o Judici√°rio est√° eventualmente dispensando este profissional, cuja presen√ßa garante mais controle e rastreabilidade.¬Ē Segundo dados do Sindicato Nacional da Ind√ļstria de Produtos para Sa√ļde Animal (Sindan), nos √ļltimos cinco anos, os antimicrobianos abocanharam cerca de 16% das vendas de tratamentos veterin√°rios (que incluem ainda as categorias antiparasit√°rios; biol√≥gicos; suplementos e aditivos; terap√™uticos). A reportagem pediu valores ¬ó e n√£o apenas percentuais ¬ó por categoria, mas n√£o teve a demanda atendida. Em nota enviada √† BBC News Brasil, a Alian√ßa para Uso Respons√°vel de Antimicrobianos, que representa v√°rias entidades do setor produtivo, afirmou tamb√©m que no ramo a quest√£o ¬ď√© tratada com responsabilidade por todos os elos da cadeia produtiva¬Ē. ¬ďContra achismos, a Alian√ßa busca construir um debate pautado pelo pensamento cient√≠fico e pela transpar√™ncia. √Č formada por organiza√ß√Ķes nacionais da bovinocultura de corte e leite, avicultura, suinocultura, aquicultura e pescado.¬Ē A Alian√ßa defende que h√° controle interno, com an√°lises di√°rias feitas pelas pr√≥prias empresas sobre a quest√£o e que o ¬ďBrasil cumpre rigorosamente as determina√ß√Ķes t√©cnicas de todas as na√ß√Ķes importadoras¬Ē. Em rela√ß√£o √† produ√ß√£o em escala, a entidade aponta que o pa√≠s ¬ďsegue as diretrizes estabelecidas pela Organiza√ß√£o Mundial de Sa√ļde Animal (OIE) para o alojamento dos animais¬Ē. ¬ďNa produ√ß√£o industrial, o sistema produtivo √© isolado em controles restritivos de acesso, o que evita a circula√ß√£o de doen√ßas. Em situa√ß√Ķes de produ√ß√£o prec√°ria, sem as devidas salvaguardas t√©cnico-veterin√°rias, os riscos de enfermidades e o uso inadequado de antibi√≥ticos s√£o maiores¬Ē, acrescentou. E agora, o que fazemos em casa? ¬ďSou um cavaleiro do apocalipse¬Ē, brinca Victor Augustus Marin, professor da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio). √Ä frente do Laborat√≥rio de Controle Microbiol√≥gico de Alimentos da Escola de Nutri√ß√£o (Lacomen), ele e seus alunos e orientandos t√™m desenvolvido uma metodologia pr√≥pria para encontrar bact√©rias resistentes em alimentos minimamente processados, aqueles prontos para consumo, como frutas e queijos. Um resumo do que eles t√™m encontrado at√© aqui: muitas bact√©rias resistentes. Em sua disserta√ß√£o de mestrado orientada por Marin, Cristiane Rodrigues Silva, por exemplo, buscou bact√©rias resistentes em amostras de queijo minas frescal. Todos exemplares estudados apresentaram algum conjunto de bact√©rias resistentes ¬ó em 13%, a resist√™ncia foi constatada para todos os antibi√≥ticos testados e em 80%, para 8 a 10 diferentes antibi√≥ticos. Foi constatada ainda resist√™ncia em 87% dos queijos aos carbapan√™micos, tipo de antibi√≥tico potente que √© considerado uma das √ļltimas alternativas na luta contra microrganismos muito resistentes. Agora, Silva, Marin e o resto da equipe est√£o estudando outros tipos de queijo, como minas padr√£o, parmes√£o, ricota e cottage; al√©m de frutas compradas no com√©rcio comum, como manga, laranja e caju. Eles tamb√©m querem verificar se outras formas de produ√ß√£o, como a org√Ęnica, podem alterar a presen√ßa de microrganismos resistentes. ¬ďComprovamos n√£o s√≥ que as bact√©rias nos alimentos estudados at√© agora t√™m alguma resist√™ncia, como genes de resist√™ncia¬Ē, aponta Marin, acrescentando que, embora em escala muito menor do que na pecu√°ria ou entre humanos, antibi√≥ticos s√£o usados tamb√©m na agricultura. ¬ďComo essa bact√©ria chegou ao queijo? Tem que voltar ao campo: a vaca come capim, que tem dentro dela bact√©rias endof√≠ticas, que vivem dentro das plantas. A vaca ingere a planta, produz leite e o leite vai para o queijo. Mas √© dif√≠cil falar quem originou a bact√©ria primeiro ¬ó elas evoluem junto com os humanos e animais. Tamb√©m s√£o prom√≠scuas: trocam material gen√©tico.¬Ē As diversas vari√°veis que influenciam a resist√™ncia dos micr√≥bios s√£o justamente o que representa um desafio para as pesquisas: para tra√ßar o caminho dos microrganismos atrav√©s dos animais, humanos e do ambiente, seriam necess√°rios grandes volumes de amostras desses elementos. E em tempo real, lembra Jo√£o Pedro do Couto Pires, j√° que muitas vezes √© diagnosticada alguma infec√ß√£o em uma ponta, mas sua origem muitas vezes j√° se perdeu no tempo. Por isso, o alarme tocado pelo artigo na Science traz um por√©m: ¬ďEst√° al√©m do escopo deste estudo tirar conclus√Ķes sobre a intensidade e a direcionalidade da transfer√™ncia de resist√™ncia microbiana entre animais e humanos ¬ó aspectos que devem ser investigados com m√©todos gen√īmicos robustos¬Ē. Enquanto a ci√™ncia busca decifrar o caminho percorrido pelas bact√©rias, o que n√≥s, humanos e consumidores de alimentos podemos fazer? Fl√°via Rossi, patologista da USP, lembra de procedimentos b√°sicos de saneamento e higiene que cortam a circula√ß√£o de microrganismos, como lavar as m√£os; o uso de √°gua pot√°vel na cozinha; e o armazenamento adequado de alimentos. O cuidado deve ser redobrado com pessoas mais vulner√°veis, como hospitalizados, imunossuprimidos ou transplantados. ¬ďAs bact√©rias tamb√©m nos protegem, est√£o no nosso intestino, na nossa pele¬Ö Mas elas nos atacam quando h√° um desequil√≠brio¬Ē, diz. Jo√£o Pedro do Couto Pires brinca que, hoje, nossas casas s√£o mais perigosas do que restaurantes por haver menos cuidado com quest√Ķes sanit√°rias. Ele destaca a√ß√Ķes a serem evitadas: misturar alimentos crus e cozidos; ou carnes e vegetais, como, por exemplo, no refrigerador ou no uso de uma mesma faca ou t√°bua para esses dois tipos de alimentos. Essas misturas levam a fluxos de microrganismos que, no caso de alimentos crus, como vegetais em uma salada, acabam sendo ingeridos pela pessoa que est√° comendo. Marin garante que n√£o se trata de parar de comer alimentos como os estudados por sua equipe, como queijos e frutas, mas de aprofundar investiga√ß√Ķes sobre como a resist√™ncia microbiana se expressa neles ¬ó para, a√≠ sim, fazer-se uma escolha entre custos e benef√≠cios. Por exemplo, algo a ser levado em conta, segundo descobriu sua equipe, √© que queijos mais √ļmidos exigem maior cuidado no assunto. ¬ďO queijo, al√©m de ter bact√©rias com resist√™ncia, tamb√©m tem outra microbiota ¬ó outras bact√©rias ¬ó que combatem as que t√™m resist√™ncia. Ningu√©m √© dem√īnio e ningu√©m √© anjo, inclusive entre as bact√©rias. Por isso a vis√£o hol√≠stica (multifatorial) √© t√£o importante¬Ē, diz. R7

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